Samba todo dia

Douglinhas Batucada

Com a globalização e sua facilidade e rapidez em obter informação, redigir historia de sambistas e compositores, ou qualquer que seja o tema abordado, é fácil. Graças à internet temos diversas ferramentas para tais fins. Apenas um click e sabemos tudo sobre Candeia, Geraldo Filme, Adoniran, Cartola e tantos outros personagens da nossa vasta cultura brasileira.

Pensando nisso, e lembrando de singelos versos do saudoso Geraldo Filme, que diziam: “sambista de rua morre sem glória“, o grupo Balaio de Samba quis conhecer quem hoje vivencia o samba.

Para dar início aos trabalhos, convidamos o compositor e percussionista Douglas Alves – conhecido também nas rodas de samba como Douglinhas Batucada – que com honra acompanhou a Velha Guarda da tradicional escola de samba Camisa Verde e Branco.

Em 20 anos de carreira, Douglinhas teve muita oportunidade e ainda hoje ele nos agracia com sua musicalidade e gingado. E é com ele que o Balaio de Samba faz o seu “abre alas” de uma série de entrevistas que trarão compositores, instrumentistas, intérpretes, para contar um pouco da sua história, suas experiências e lembranças.

Balaio de Samba: Douglinhas, conta um pouco pra gente sobre sua chegada no samba.

Douglinhas Batucada: Quando eu era criança meu pai integrava um grupo chamado Samba Tiê, só tinha eu de moleque, 11 anos. Comecei na música tocando bateria com 12 anos, aprendi e desenvolvi na igreja onde tocava e não tive aula com ninguém, sou bom de ouvido. Eu via e ouvia o pessoal tocando e assim fui aprendendo. Mas desde moleque o samba foi meu berço. Acompanhava meu pai e comecei no repique de mão que ganhei do meu pai mesmo (e que tenho até hoje), mas ainda não sabia o que queria tocar. Com 12 anos tentamos montar um grupo, eu e o Zezinho, mas não foi pra frente, não. Pra valer mesmo foi quando eu tinha uns 18 anos, o grupo chamava Primor. Depois acabei participando do grupo Free Lance, que mais tarde virou Sairê. Comecei a tocar tantanzinho, fui desenrolando e hoje ele toca sozinho na minha mão. Com o Sairê gravamos duas músicas, uma do Michel Wallace e do Ricardo Boca com parceria do Michael.

BdS: Você chegou a fazer algum curso de música para aprender a tocar percussão?

DB: Anos atrás a gente tinha um grupo chamado Sairê, que tocava no “Em cima da hora”, um espaço que a Velha Guarda do camisa tinha Lá na Vila Carolina, reduto de bamba. Lá eu conheci o Abadengo, grupo barra pesada, referência pra muita gente. Fiz umas aulas com o Toninho Abadengo, parei, fiz ULM, depois parei também. Não fiz nada de teoria, prática, porque descobri que samba não se aprende na escola.

BdS: Quais são suas influências?

DB: Influências tenho muitas, uma delas é o Geraldo Babão o cara dava problema nos versos. Aniceto do Império e Jovelina Pérola Negra, também davam trabalho. Ouço também Chico Buarque, Emílio Santiago, Cartola, João Nogueira sou fã. Luis Melodia, João Bosco, gosto de ouvir sempre que volto das batucadas. Mas tocando o mais forte é partido alto, o samba versado não tem pra ninguém.

BdS: Quem são os seu ídolos? Já dividiu o palco com eles?

DB: Pra mim, no palco era o Emílio Santiago. Falando de caneta é o Almir Guineto, e sempre o lado B, o que a mídia não toca. Mas tem vários outros, como Wilson Batista, Chico. Os baianos Gil, Caetano… Já dividi o palco com o Almir Guineto, Velha Guarda do Camisa Verde e Branco, Fabiana Cozza, Jorge Aragão, todos eles com a Velha Guarda.

BdS: Houve um momento marcante nesses 20 anos de carreira?

DB: Foi num ensaio feito na Loja Contemporânea, no centro, estávamos ensaiando um dia e quando olhamos no vidro do estúdio vimos o Zeca Pagodinho. Todo mundo parou, tremia a mão, deu tudo. Isso não esqueço, ficou muito marcado.

BdS: Como você vê o cenário atual do samba?

DB: Por exemplo: o samba carioca vai ser sempre samba carioca, a pegada de lá é diferente, os músicos são diferentes. Agora o samba paulista ta complicado, até porque você vê muita gente aqui de São Paulo que só faz samba carioca. Hoje tem muito compositor bom por aí mas que ninguém conhece, tem uma menina chamada Roberta Oliveira que canta muito samba paulista. É tudo samba, mas é bem diferente, tanto na linguagem, quanto no carnaval, não tem como.

BdS: Ainda existe algo para conquistar na sua carreira?

DB: Eu sou um cara simples, não tenho nenhuma ambição, faço e vou batalhando, divulgando, se alguém aparecer e gostar e propor algo, eu vejo no que dá. As minhas músicas tem parceria com os meninos, e às vezes a gente nem termina o samba. Eu mesmo tenho dois parceiros que são malandros da caneta (Alan e o Parcio Anselmo), os dois escrevem muito, qualquer lugar é lugar pra escrever. Mas por enquanto não tenho nenhuma música minha gravada.

BdS: Tem algum conselho que você possa dar pros jovens que estão começando no samba?

DB: Se conselho fosse bom a gente vendia (risos). Mas tem que pesquisar e conhecer a história, mas não aquela que a internet fornece, mas aquela que o povo vivenciou, que tá aí pra ser compartilhada e ensinada.

BdS: O que você tem pra dizer pro nosso grupo o Balaio de Samba?

DB: Primeiro quero agradecer pela matéria, e falar que o samba paulista precisa dessa iniciativa, de gente que corre atrás, trazer os compositores que estão por ai (Regiane Oliveira e o parceiro Chita, do Camisa Verde e Branco, por exemplo), gente barra pesada na caneta.

Agradecemos Douglinhas Batucada por conceder essa entrevista e nos proporcionar uma conversa divertida, descontraída, além da rica troca de experiência e aprendizado que o Balaio divide com todos vocês. Muito Obrigada!