Samba todo dia

Garoa, tia baianas

Por Bia Bernardi

“Garoa, resistência do meu samba

O samba do povo

Calar nosso cordão não adianta

Que a gente canta de novo”

Garoa, Heron Coelho, Renato Dias e T. Kaçula

 

Dizem que o céu é azul, que o mel é doce, que brasileiro é miscigenação e que São Paulo é o túmulo do samba. Quem disse, tem provas? A propósito, intimo você, leitor desse texto, a me provar cada uma dessas afirmações com fatos!, e não com disse-me-disse de outrem.

E enquanto dou um tempo para que pense, imagine, pesquise, desenhe e chegue a uma conclusão, vou trazer aqui algumas informações que possam – talvez – lhe ajudar. E se mesmo assim não for possível comprovar, tudo bem, não se preocupe porque eu já sabia que daria nisso…

Sobre o céu ser azul e o mel, doce, não faço questão de contrariar. Próxima.

Quantas foram às vezes que escutei que somos a mistura de tudo, o liquidificador da sociedade! Uma coisa é certa e eu devo admitir: não tem povo mais receptivo do que o brasileiro. Aliás, basta dizer que algo é importado que logo arregalamos os olhinhos e abrimos os nosso braços. Mas aqui há uma diferença que ninguém percebe: uma coisa é aceitar o novo, e outra, bem diferente, é torná-lo parte de si.

É impossível contar nos dedos a quantidade de manifestações culturais genuinamente brasileiras, nascidas e praticadas aqui, principalmente se levarmos em conta a região Nordeste do país, repleta de cultura arraigada em décadas e mais décadas. Temos dança, música, arte que surgiram aqui e que hoje daqui saem com o selinho verde-amarelo-azul-e-branco. E a culinária, então? Acarajé, baião de dois, feijoada, moqueca… Nem dá pra discutir, ainda mais porque estamos falando de um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza como é o nosso, em que se plantando, tudo dá.

E pergunto: quem vai dizer que, apesar dos instrumentos metálicos de sopro não serem comuns no Brasil em meados do século XIX, o frevo não é um ritmo cem por cento brasileiro? Quem se atreveria a dizer que a capoeira, ainda que tenha sido praticada mais intensamente por negros africanos para afastar o banzo, não é de origem brasileira? E o maxixe, o baião?

E olha só que engraçado: não são essas as manifestações que são levadas do país para conquistar outras terras? Deduzo, então, que não sejam fruto de simples miscigenação, mas um produto nacional, certo?

E não diferente disto está o ritmo que dá a cara do Brasil, o samba! Se carioca, baiano ou paulista, não importa: é brasileiro! A única questão que envolve esse tema é que a frase mal-interpretada do poeta ainda ecoa doída no coração dos ipiranga-são-joanenses…

Mas o fato é que não se pode dizer que a terra da garoa é o túmulo do samba por um único e simples motivo: o samba não morreu! Nem em São Paulo, nem em lugar nenhum.

O contrário, sim, é bem verdadeiro, uma vez que uma das primeiras movimentações de samba carnavalesco, em nível nacional, se deu aqui na terra de Adoniran – que também tem Fredericão da Zabumba, Zeca da Casa Verde, Pato N’água, Dito Caipira, Toniquinho Batuqueiro e tantos outros – com o Grupo Barra Funda, fundado em 1913 por Dionísio Barbosa.

Tanto mesmo é verdade que justamente nessa época do ano – no carnaval – é que o samba da paulicéia se mostra vivo: na tevê, no sambódromo e pela cidade afora. Tem pra todo gosto: grupo especial, de acesso, escola, bloco e cordão. Basta procurar na internet e sair pro abraço!

Durante todo o mês de fevereiro é possível encontrar, em cada canto da metrópole, um grupo munido de surdos, tambores, caixas e alegria para dar e vender, cantando marchinhas clássicas ou ainda sob um tema especial. E por todo o restante do ano, nas zonas Norte, Sul, Leste e Oeste tem roda de samba para degustar do sabor do pandeiro. Quem visita o terreiro paulista consegue sair ileso.

Uma grande verdade foi dita já em 1937, pelo nosso ilustre mestre Geraldo Filme, ainda com seus parcos 10 anos de idade, que […] somos paulistas e sambamos pra cachorro / pra ser sambista não precisa ser do morro!

E tenho, paulistanamente, dito!